O Tempo nosso de cada dia…
É fato: no mundo em que vivemos – esse mesmo dominado por laptops, internet, celulares, Ipods, robôs, carros computadorizados, refrigeradores “inteligentes”, e mais uma infinidade de produtos e serviços da era digital – não aprendemos a parar o relógio. Nem o das horas, nem o biológico.
Não, não sugere-se aqui que ninguém pare seus ponteiros ou corra para a maca cirúrgica das miraculosas plásticas a fim de recuperar alguns anos. O tempo em questão é o qualitativo! Aquele que não sobra ao final do dia para um cineminha a dois, para montar o castelinho de peças coloridas com o filho, para o banho de sais, para um carinho no marido/esposa, ou simplesmente para uma taça de vinho na varanda a sentir brisa fresca.
No mundo que vivemos? Não! Somos zumbis automatizados, plugados nos 220 v, pré-programados para trabalhar 12h por dia, almoçar qualquer porcaria (quando sobra tempo). Enfiamos as crianças na escola o dia todo, chegamos em casa exaustos e aos fins de semana entre horas extras e papeladas, planilhas, contas por pagar, tarefas domésticas, problemas a resolver, quem sabe… Ali, na lanchonete mais próxima, só para nos eximir da culpa, passamos quinze minutos com os filhos/amigos/cachorro. Então, o momento sofá: assistir um pouco de televisão e dormir. Ah… dormir! Tirar aquele sagrado sono atrasado da semana inteira.
Agora a pergunta que inconveniente vem nos tirar dessa cansativa, porém cômoda rotina: Isso é viver?
Vivemos de verdade? Aproveitamos a vida em total plenitude? Mais que isso: Sabemos o real valor do tempo?
Vira e mexe alguém diz: “Poxa, como passa rápido!”. Também não é raro ouvir: “Nem se vê o tempo passar, não é?!”.
Mas por que não se vê? Fecha-se os olhos enquanto o tempo passa ali, diante dos narizes atarefados respirando a poluição? Ou, simplesmente as pessoas estão ocupadas demais para ver o tempo passar?
Muito conhecida, a máxima latina Carpe Diem se popularizou entre os brasileiros. Virou nome de perfume, estampa de camiseta, lema pessoal de milhares. O significado na íntegra “colha o dia”, ou simplesmente, como ficou conhecida “aproveite o dia”, faz sucesso. No Inglês, traduz-se por Seize the Day, que significa literalmente “capture o dia”, algo como “agarre-o, ele é tudo o que você tem, aproveite-o ao máximo, o amanhã é incerto!”. E os ingleses estão aderindo cada vez mais à filosofia. Irônico é que não fica apenas no lema, na frase, na camiseta. Eles o fazem. Inclusive, na Europa, já em meados de 1980 foi criado um movimento, o Slow Food, que propõe um estilo de vida contrário a esse corre-corre contemporâneo. Isso há vinte anos atrás. A idéia é degustar os alimentos de forma a cultuá-los, aproveitá-los, ter prazer à mesa e estender essa filosofia para a vida. Uma Slow Life.
Na mesma Europa, no lindo e inebriante país das flores e vinhos, outra expressão de ideologia similar ao Carpe Diem rege os hábitos dos sempre alegres e saudáveis habitantes. Na “Grande Bota” (Itália), Dolce far Niente sem dúvida é a grande arte. (Ah sim, os italianos sabem como viver, povo sábio!). No português não se encontra uma tradução literal, mas seria algo como “não fazer nada”, porém esse ócio deve ser devidamente aproveitado com algo extremamente prazeroso. A idéia é simples: Tirar um tempo para si (da correria do trabalho, dos estudos, da rotina doméstica ou o que quer que seja) e deleitar-se da melhor maneira possível. Vale tudo: Ler um livro, tomar um banho de mar ou de chuva, cavalgar pelo campo, assistir a um ótimo filme, estar em boa companhia ou curtir a própria solidão. Quem sabe degustar uma refeição, visitar um museu, ou simplesmente, de pernas para o ar, não pensar em nada, não fazer nada, e ainda assim, aproveitar docemente o tempo vago! Sem culpas, apenas prazer. Dolce far niente!
Tudo é uma questão de escolha. E se é possível trabalhar mais de 60h por semana, dar conta de casa, da família, de si mesmo, assoviando e chupando cana ao mesmo tempo… é bem possível abrir uma brecha na agenda só para se permitir pequenos (ou grandes) momentos de paz para consigo.
Paz, prazer, descontração, plenitude. VIDA, enfim! Quem sobrevive é bicho na selva. Humanos vivem com prazer. Chegou o tempo de parar o relógio, tanto o das horas quanto o biológico. É tempo de viver num mundo em que cada um saiba aproveitar a única coisa que tem: O DIA DE HOJE!
Por Anamaria Moraes - Escritora, colunista do Jornal Farol e blogueira.
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